segunda-feira, setembro 27, 2010

No Caminho da Dança, cap. II

Lizzy acordou na manhã de terça-feira com a cabeça latejando de tanta dor. Levantou-se da cama e sentou na poltrona do quarto que dividia com Jane. Esfregou os olhos tentando espantar a dor e foi caminhando lentamente até a cozinha ainda de olhos fechados.

Abriu-os o bastante para ver onde estava a caixa de remédios e pegou um dos comprimidos para dor de cabeça. Encheu o copo que estava em cima da pia de água e engoliu o remédio.

“ Pronto, Agora é só esperar ele fazer efeito e me mandar para a academia.” ”

Gemeu baixinho ao se lembrar que sua primeira aula do dia seria com seu querido professor Antony, o tal implicante do departamento de expressão corporal.

Deixou-se cair no sofá que estava a poucos metros da cozinha e fechou os olhos. Se não amasse tanto a dança, não suportaria toda a rotina de aulas e testes que passava.

Não demorou muito para Jane aparecer já vestida com o vestido azul usual de sua aula de pintura e dar um bom dia que transparecia todo o seu bom humor.

- Bom dia...

Lizzy respondeu ainda deitada no sofá com um pequeno gemido. Jane apoiou todo o material que carregava na mesa da sala e sentou-se ao lado da irmã.

- Dores de cabeça de novo?

- Aham...

- Oh Lizzy! Você precisa ver um médico... isso está se tornando constante.

- Não é nada demais. Só tenho me esforçado de mais e comido e descansado de menos.

- Precisa se cuidar melhor. Imagina o que papai diria se soubesse que você anda sendo tão descuidada?

Lizzy deu língua para a irmã com um ar infantil. Por que ela sempre tinha que usar o pai como peso na consciência? Agradeceu pela dor de cabeça já ter ido embora e correu para em direção ao quarto para se arrumar.

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Guardaram as coisas em seus respectivos armários na academia e despediram-se. O dia de terça-feira era cheio para ambas irmãs Bennet.

Lizzy teria durante toda a manhã aula de expressão corporal e Jane teria história da arte. Combinaram de almoçar juntas no refeitório da academia mesmo e depois cada uma se separaria. Jane teria pinturas em tela e Lizzy passaria o resto do dia com aulas de centro* de jazz, ballet, e street dance.

Como Jane acabaria antes, voltaria para casa com o carro e Lizzy pegaria carona com alguma das meninas ou simplesmente tomaria um ônibus até em casa.

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Lizzy seguiu para o vestiário e tirou o jeans que estava usando por cima do colant preto, uniforme da academia. Amarrou o blusão um pouco mais apertado ao corpo com um nó e pos a calça de malha larga também.

Em aulas como aquela era bom que ficasse bem livre para fazer os movimentos exigidos.

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Quando chegou a sala, todos os alunos já estavam presentes e o professor também.

- Atrasada de novo senhorita Bennet? Saiba que não vamos esperar por você para começar as aulas.

Lizzy revirou os olhos e lançou um olhar de esguelha para o relógio da sala. Ainda eram sete e cinqüenta. A aula só deveria começar oito horas. Deixou a indignação de lado e pôs a sapatilha de jazz nos pés e começou a rodá-los tentando aquecê-los um pouco.

- Muito bem... quero todas espalhadas pela sala de frente para o espelho. Vamos fazer um pequeno aquecimento, e depois começaremos para valer. O exercício é o seguinte: vocês formaram uma fila e tirarão uma das cartas da minha mão.

O professor apontou para um pequeno envelope em cima de sua mesa que estava recheado de algumas cartinhas.

- Cada uma delas possuí uma série de expressões que vocês deverão fazer enquanto realizam a pequena coreografia que tenho certeza, a professora Maila ensinou para vocês no aperfeiçoamento de passos. Quero ver uma de cada vez. Então vamos parar de enrolar e começar. Temos muito que fazer.

Maila era a professora de street dance. Todas ocuparam um espaço na sala e fizeram o pequeno aquecimento. O professor foi até a sua mesa e pegou um dos envelopes. Cada aluna pegou sua carta e organizaram uma fila.

As expressões

• Felicidade nos dois primeiros oitos* da música.
• Dúvida nos dois seguintes
• E confiança no final da música.


http://www.youtube.com/watch?v=h__d0RMFOkQ
(o que interessa é a música)

O professor ligou o som e a música começou. Uma a uma, as alunas passaram a pequena coreografia com as expressões exigidas. O professor acompanhava cada uma com a cata sorteada em mãos.

Às vezes exigia um pouco menos de alegria, ou um pouco mais de tristeza nos movimentos, mas sem nada que fosse extremamente notória nos erros.

Em sua vez, Lizzy lhe entregou a cartinha que mantinha firme em suas mãos e começou seguindo exatamente o que a cartinha ordenava. Nos dois primeiros oitos se mostrou incrivelmente feliz em todos os seus movimentos. Depois se mostrou mais hesitante, e nos ultimo dois oitos confiante.

O professor, ao termino da série , estava com uma expressão extremamente engraçada. Seus lábios estavam crispados, fazendo com que apenas uma linha se formasse com seus já finos lábios. Apertava firmemente a carta nas mãos e parecia mais um pequeno cachorrinho.

Lizzy sorriu internamente. Sempre que o seu querido professor assumia esse ar era por que não havia encontrado nada o que criticar em Lizzy.

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As aulas da manhã terminaram, e as duas irmãs Bennet encontraram-se em seus armários. Seguiram juntas para o refeitório e almoçaram enquanto conversavam sobre amenidades.

- Ah Lizzy, você já ouviu falar que os donos da academia farão uma visita aqui? Acho que eles querem ver como anda os negócios.

Lizzy deu de ombros e deu mais uma mordida em sua maçã.

- Eles nem saberão que existimos. Não é lá muito animador. Provavelmente virão dar uma olhada e irão voltar para o aconchego de seu lar no dia seguinte.

- Oh Lizzy! Não devia ser tão ingrata. Sem eles isso aqui não funcionaria.

Lizzy não respondeu e continuou comendo a maçã como sobremesa.

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Um pouco antes do inicio das próximas aulas, Lizzy voltou ao vestiário para trocar de roupa. Substituiu a blusa e calças largas e vestiu sua saia transparente de ballet. Já estava de meia. Prendeu o rabo-de-cavalo em um coque e seguiu para a aula.

Passou os olhos pela turma a procura de uma das amigas.

- Isabel!

Chamou ao ver a amiga já botando as sapatilhas. Isabel acenou e Lizzy sentou-se ao seu lado.

- Por que não veio a aula ontem? Senti a sua falta, sabia?

Isabel riu e olhou de esguelha pra Lizzy.

- Não sabia que fazia tanta falta assim nas aulas.

Lizzy riu e deu um tapinha na perna da amiga.

- Eu sei porque você resolveu vir hoje! Seria um certo Thomas, que faz aula com agente nos dias de centro?

Lizzy falou lançando um olhar divertido a um dos poucos meninos que faziam ballet. Isabel corou e murmurou.

- Não fale bobagens.

Lizzy apenas balançou a cabeça e terminou de enrolar os dedos, um a um, com esparadrapo. Assim evitava que doesse tanto os pés. Terminou de enlaçar os tornozelos com a fita de cetim e dirigiu-se até a barra, acompanhada de uma Isabel ainda corada, para aquecer os pés para a aula.

Fizeram um pequeno aquecimento acompanhadas por uma peça tocada pela senhora Fib, a pianista das aulas.

http://www.informadanza.com/glossario/img/Plie.jpg
(música dos exercícios)

Fizeram uma série de demi-plié e plié*** seguidos de supleces e cambrés**** em todas as posições. Alongaram as pernas com os pés apoiados na barra e finalmente começaram a fazer os exercícios de centros.

No centro, fizeram uma série de dez saltos de Changements de pieds***** seguidos por saltos em todas as direções de sissone.******

Seguiram com os exercícios até o fim da aula.


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As aulas seguiam de um modo divertido. Nos intervalos, Lizzy e Bel corriam até o vestiário e trocavam de roupa para a aula seguinte. Trocavam a sapatilha de Ballet para a confortável sapatilha de jazz. Tiravam a saia transparente, que ambas usavam, e colocavam a calça preta de lycra. Voltavam a usar o blusão.

Depois da aula de centro de jazz, corriam novamente para o vestiário, afim de trocar a sapatilha de jazz pelo tênis do street e tirar o colant obrigatório nas outra aulas.

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Isabel e Lizzy estavam saindo juntos do imponente prédio da academia. Conversavam e riam sobre as expressões engraçadas das professoras durante as aulas.

- Bel, você poderia me dar uma carona até em casa? Jane já foi, ela terminou mais cedo hoje.

- Claro, entra ai.

Bel abriu o carro e as duas seguiram até o apartamento de Lizzy, cantando e rindo.

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“Cadê essa maldita chave?”

Automaticamente apertou a campainha com força e esperou que alguém abrisse. Como ninguém veio, voltou a revirar a bolsa, enquanto soltava reclamações em voz baixa.

”Vou ter que voltar na academia... droga, a essa hora já deve estar fechada.”

Lizzy reclamou enquanto consultava o relógio. Fechou a bolsa com impaciência e desceu as escadas do apartamento saltando alguns degraus.
Caminhou até o ponto de ônibus e pegou o primeiro que ia em direção ao centro.

Não teria problemas em entrar. O vigia era um senhor muito simpático, e tinha certeza que não se oporia.

- Boa noite.

- Senhorita Bennet? O que faz aqui tão tarde da noite?

- Esqueci as minhas chaves de casa em algum lugar, e não consigo entrar em casa. Não teria problemas se eu entrasse para procurar, teria?

O zelador olhou para os dois lados da rua, e sorriu dando passagem para Lizzy.

- Não demore.

Lizzy acenou e subiu a longa escadaria de mármore branco até o vestiário. Olhou de relance por cima dos bancos e dentro dos trocadores. Nada.

Já estava desistindo quando viu um pequeno brilho debaixo do grande e alto banco central.

- Ai está você!

Abaixou-se e engatinhou até ficar completamente embaixo do banco. Alcançou a chave e estava prestes a sair daquele lugar cheio de poeira quando ouviu passos no vestiário.

Congelou no mesmo lugar e se encolheu.

“ Droga! Se me pegam aqui o pobre John perde o emprego!

Avançou só um pouco no intuito de ver quem era. Arriscou um olhar e viu que era um homem que nunca havia visto antes. Voltou a se encolher e rezou para que ele fosse logo embora.

Mas o homem não parecia ter muita pressa. Olhou tudo com grande curiosidade e inspecionando tudo com muita curiosidade.

“ Ai não, ai não”

Lizzy pensou enquanto coçava o nariz e rezava para que o espirro que lhe causava tanta aflição não saísse realmente.

- Atchim! – “ maldita alergia!”

Lizzy não pode segurar, por mais que fizesse caretas para isso. Além de chamar a atenção que não queria, ainda bateu fortemente com a cabeça no banco.

Levou a mão na cabeça acariciando o lugar em que batera de olhos fechados. Quando abriu os olhos viu duas pequenas contas a fitando. Era com certeza os olhos mais lindos que já vira. Brilhavam, e parecia a luz roubada de alguma estrela do céu.

Lizzy sorriu envergonhada e começou a engatinhar para fora do banco. Levantou-se ainda sem encarar o homem com expressão curiosa a sua frente e arrumou a calça que estava suja.

Quando finalmente tomou coragem para encarar aqueles lindos olhos perdeu o fôlego.

“ Da onde esse Deus grego saiu?”

Ele era lindo. Alto, e um porte elegante. Seus ombros era largos e os músculos definidos podiam ser distinguidos através da blusa branca de linho. Segurava um casaco que devia estar sobre a blusa quando chegou, mas lá estava quente.

O rosto... como descrever tal perfeição da natureza? Seus olhos eram extremamente azuis e possuíam a profundeza de mil oceanos. Os lábios eram fartos e delineados. O nariz delicado, mas expressivo. O queixo saliente.
O cabelo estava um pouco bagunçado, o que o deixava mais sensual, e era de um castanho pura e mesmo no escuro, brilhante.

“ Ai. To perdida.”

Lizzy pensou enquanto o olhava e mordia inconscientemente o lábio.

- Está doendo?

Ele perguntou apontando para a cabeça de Elizabeth. Sua mão continuava inconscientemente afagando o local em que doía.

“ Estou patética. Por que sempre que encontro o homem... an, decente, estou terrivelmente patética?”

E sua voz. Era arrebatadora como o mar, suave como a mais fina seda, e macia como o mais puro veludo.

- Um pouco.

Ela respondeu com o fiasco de voz que conseguiu reunir. Ele pegou em sua mão livre e Lizzy pode sentir uma corrente de eletricidade percorre-lhe o corpo.

A conduziu até uma cadeira e fez com que ela sentasse. Foi até a pequena maquina de gelo e pegou um pouco. Enrolou em um lenço que carregava no bolso e entregou a Lizzy.

- Bote na cabeça onde doe. Vai melhorar um pouco.

Lizzy se irritou um pouco com o tom autoritário, mas colocou. Sua cabeça estava realmente latejando. Ele se sentou ao seu lado.

- Você estuda aqui?

- Estudo. Dança.

- Gosta?

- Muito.

Encarou os pés por um minuto.

- Desculpa-ter-entrado-depois-do-horario-é-que-perdi-minha-chave-aqui-e-tive-que-vir-buscar-para-entrar-em-casa.

Falou de um só fôlego. O homem que a fitava começou a rir e Lizzy sentiu-se extremamente patética naquela situação. Como sua risada era melodiosa.

“ E como ele fica lindo sorrindo...”

- Não precisa se preocupar. Agora já é bem tarde e acho que devíamos sair daqui.

Lizzy concordou e os dois seguiram caminhando e conversando sobre a escola até a saída. Ela se despediu e seguiu para casa, sonhando com aquele homem misterioso.

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“ Finalmente, posso entrar em casa.”

Abriu
a porta e entrou, fechando-a atrás de si. Jane a olhou surpresa.

- Onde você estava?

- Na rua porque esqueci a chave na academia.

Andou devagar até o sofá e deixou-se cair.

- O que é isso na sua mão?
Jane perguntou ao ver um pequeno lenço espremido nas mãos de Lizzy.

- Droga! Esqueci de devolver! – não é minha culpa se ele tem aqueles olhos magníficos – é do senhor...

Parou.

- Meu Deus! Eu ao menos perguntei seu nome! Como vou devolver?

- O que aconteceu Lizzy?

Lizzy narrou com todos os detalhes a sua breve visita à academia. Ao terminar encarou a irmã com uma expressão curiosa.

Jane começou a rir, logo levando uma almofadada da irmã. Começaram uma pequena guerra. Ouviram o barulho da chave na porta e pararam. Luciene e Charlotte entraram, recebendo como boas vindas, uma almofadada e começando uma pequena guerra...

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Aulas de centro – Na dança, você tem exercício em quatro “meios”.

Chão, que são exercícios em sua maioria de flexibilidade no chão.

Barra, na maioria são para fortalecer e aprimorar os movimentos. É na barra (segurando-a com uma das duas mãos) que o bailarino aprende os primeiros exercícios e passos. É como treinar a caligrafia em um caderno especial. Os exercícios de barra seguem um ritmo certo: primeiro são feitos os movimentos mais lentos, para aquecer os músculos e as articulações, depois os mais rápidos, para dar força e agilidade ao corpo.

Centro, você aplica o que aprendeu no chão e na barra para realizar os passos. O Centro (o meio da sala) é a principal parte da aula, pois o bailarino dança livremente. O centro exige postura, coordenação, força, agilidade, que são desenvolvidas na barra. No centro também há exercícios lentos e rápidos. Primeiro, com os pés no chão, até chegar aos saltos. É tão natural como o desenvolvimento

Diagonais, você faz pequenas “coreografias” para treinar saltos e aplicar o que aprendeu.

Oitos – Na dança, para criar os passos e pegar o ritmo, usamos uma contagem, que segue até oito. Cada passo, ou alguns passos, utilizam um oito para ser realizado.

Plié - Uma dobra de joelhos ou joelho. Este exercício torna as juntas e os músculos mais flexíveis e maleáveis bem como tendões mais elásticos. Existe o plié, que é uma dobra não muito acentuada dos joelhos, e o grand plié, onde a dobra dos joelhos é bem acentuada, levantando os calcanhares
quando já perto do chão na 1ª, 3ª e 5ª posição.
http://www.informadanza.com/glossario/img/Plie.jpg

Cambré - Arqueado. Dobrar o corpo a partir da cintura, para a frente, pra trás ou pra os lados, a cabeça acompanha o movimento.

Suplece – movimento que alongamos a lombar, que desce da posição ereta da coluna e tenta encostá-la no joelho.

Changements de pieds - Troca de pés. Passos saltitantes na quinta posição onde os pés são trocados no ar.

Sissone - Um salto dos pés caindo em um pé com a perna trabalhada estendida para o lado,frente ou atrás num movimento parecido com o de uma tesoura.
http://web.syr.edu/~kmzellne/images/page%20pictures/sissone

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