sábado, outubro 02, 2010

No Caminho da Dança, cap. VI

A manhã de sábado era especialmente preguiçosa para Lizzy. Não havia aulas e ela poderia ficar deitada na cama preguiçosamente até Jane resolver acordá-la com algum discurso de que deveria sair um pouco e tomar sol.
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O final de semana se passou calmo e divertido para as moradoras do pequeno apartamento. Às tardes, Lizzy ajudou Charlotte a desenhar alguns modelos de roupa para a loja. Divertiram-se escolhendo cores e estampas.

Jane passou todo o final de semana trancada em seu ateliê, fazendo sabe-se lá o que. Invariavelmente ela sai de dentro do pequeno quarto de empregada que usava toda suja de tinta, mas radiante. Não permitia que ninguém visse seu trabalho e trancava a porta todas as vezes que saia de lá.

Obvio que todo esse mistério em relação ao trabalho chamou a atenção de Lizzy, que tentou sondá-la de todas as maneiras, sem sucesso. Então, consolou-se com o fato de que mais cedo ou mais tarde acabaria descobrindo.


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http://www.youtube.com/watch?v=ENSaMIyoxts
( novamente, a música)

O músculo da perna de Lizzy já doía pelas intermináveis repetições de relevé*. Mas era necessário, e entendia isso. Seu músculo precisava estar suficientemente forte para agüentar todas as elevações na ponta que deveria fazer em suas coreografias.

Uma vez Márcia contara dos tempos que ela mesma era aluna. Obrigavam-na a usar pesos nas pernas e nos braços. Normalmente eram de dois quilos, ou se o professor estivesse de bom humor, um. Mas ela mesma havia falado que jamais faria isso com suas alunas. Seria crueldade demais.

- Para terminar, vou ser bem boazinha. Apenas um passé** na ponta!
E, fica!

Márcia passou inspecionando uma a uma. Sorriu com satisfação e mandou-as relaxar. Lizzy alongou-se um pouco, só para relaxar os músculos e procurou Isabel com os olhos. Novamente ela não viera á aulas. O que será que andava acontecendo com ela?


Caminhou até um dos bancos da sala e começou a tirar as sapatilhas enquanto conversava com Gabrielle, uma das outras alunas da academia. Novamente o tema baile foi abordado. Era unânime. Todas estavam ansiosas e especialmente curiosas. Boatos circulavam por toda a academia. Especulava-se que os donos eram extremamente ricos e que eram também solteiros.

E é claro, o ultimo boato era de grande interesse para grande parte das meninas do instituto. Imagine, namorar um homem tão rico e poderoso como o dono daquele formidável lugar?

Lizzy ria das especulações. Achava uma perda de tempo em correr atrás de um homem só por causa do tamanho de sua conta bancária. E se o tão famoso dono fosse uma múmia de tão velho?

Despediu-se das amigas e seguiu para seu armário. Ainda encontraria Jane para irem juntas para casa.

- Lizzy! Por que demorou?

Jane perguntou. Parecia extremamente feliz com alguma coisa e sorria. Um sorriso estilo “ eu tenho trinta e dois dentes”

- Nossa! Por que tanta felicidade?

- Você não sabe o que me aconteceu hoje! A professora de pinturas á óleo me chamou no final da aula e me pediu que pintasse um quadro especialmente para o baile de sábado. Não sabes como fiquei honrada com o pedido. É uma oportunidade muito boa, e céus! Existem tantos alunos melhores que eu! Não sei como ela pode me escolher!

- E iniciamos mais um capitulo da saga “Jane e sua modéstia!”

Lizzy fez graça. Jane limitou-se a rir e terminou de guardar as suas coisas em seu armário. Estava de muito bom humor para irritar-se com as implicâncias de Lizzy.

- O único ruim é que vou ter que parar temporariamente um trabalho que estou fazendo.

- E que você não quer me dizer qual é!

Lizzy respondeu emburrada, estampando no rosto uma tromba enorme. . Jane apenas sorriu misteriosa e partiram para casa.

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Quando chegou na pequena sala em que dava aula na comunidade carente, todas já aguardavam ansiosas e sorridente. Lizzy beijou todas e abriu a sala.

Elas entraram e logo começaram a se arrumar como verdadeiras bailarinas. Embora Lizzy não exigisse um coque nas aulas todas tinham o maior orgulho de prendê-los e exibi-los em sua modesta perfeição.

Colocavam a sapatilha de meia ponta com cuidado e esperavam pacientemente enquanto Lizzy colocava a musica no som e indicava o exercício que deveriam fazer. Começavam sempre na barra, seguiam para uma pequena aula de chão e para completar uns exercícios de centro.

A aula terminou e Lizzy ficou com as meninas até que os pais de cada uma vieram buscá-las. Apenas uma ficou além do horário, tristonha e chorosa em um canto.

Lizzy se aproximou-se e sentou-se ao seu lado, cruzando as pernas e imitando a postura da menina.

- O que houve Dandara? Por que está tão tristonha hoje?

A menina encontrou os olhos de Lizzy. E por um impulso, jogou-se nos braços de tão querida professora e a abraçou, deixando as lágrimas reprimidas rolarem por seu pequenino rosto.

Lizzy retribuiu o abraço e afagou-lhe o cabelo. Depois de alguns minutos a menina sentou-se de frente para Lizzy e sorriu.

- Desculpe tia Lizzy. Às vezes me deixo levar.

- Oh minha querida, não tem problema. Todo mundo precisa por para fora um dia. O que aconteceu?

- Meu pai ficou doente de novo, e não melhora.

- Não se preocupe. Ele vai ficar bom!

Lizzy sentia-se tão impotente diante daquela situação! Queria ajudar, queria fazer alguma coisa por ela. Não sabia o que, mas iria fazer alguma coisa para ajudar.

Poucos minutos depois uma senhora robusta veio buscar Dandara.

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Era manhã de terça-feira e estavam tendo aula de expressões. Nesse dia, Antony estava atacado. Achava tudo ruim, e mandavam refazer os exercícios milhares de vezes.

- Vocês têm que se expressar melhor! Repitam mais uma vez, e quero ver animação!

Antony religou o som e todos retomaram suas posições, murmurando alguns apelidos “carinhosos” para o professor.

Ainda não satisfeito com a última passagem da música, fez com que repetissem mais três vezes, o que os deixou potencialmente exaustos...

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- Isabel! Por que você faltou de novo ontem?

Isabel sorriu para Lizzy e formulou uma resposta pouco convincente. Porém, antes que Lizzy pudesse atacá-la com perguntas, Márcia adentrou a sala e ordenou que formassem casais.

Bel olhou de soslaio para Lizzy e corou. Lançou-lhe um olhar desafiador e aproximou-se de Thomas, que conversava com alguns amigos do outro lado da sala.

Lizzy não podia acreditar no que estava vendo. Bel estava realmente indo falar com Thomas por livre e espontânea vontade? E não estava corada ao extremo?

“ Não, ela não teria... ”

Sim. Bel estava lá, falando com Thomas na frente de todos os outros meninos da aula.

Lizzy ficou olhando boquiaberta para a cena, até que sentiu uma leve mão tocar-lhe o braço. Virou-se assustada e deparou-se com Oliver, um outro aluno, chamando-a para ser sua dupla.

Dera sorte. Além de ser bonito e ter um corpo escultural, Oliver era, na opinião de Lizzy, o melhor bailarino de sua turma. Ela sorriu, e aceitou o convite. As outras a olharam com desprezo.

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Fizeram um treinamento de elevações, o qual todos saíram muito bem. Ao fim da aula, Oliver despediu-se de Lizzy com um beijo na bochecha e partiu apressado para a sua próxima aula.

Bel se aproximou sorrindo da amiga, agora vermelha. Lizzy, não perdendo a oportunidade, começou a falar enquanto encaminhava-se para o vestiário.

- Belzita, o que foi aquilo? Surtou, foi? Comprou coragem na farmácia? Em qual foi?

Bel riu e começou a brincar distraidamente com o fecho de sua bolsa.

- Eu tomei coragem, foi só.

- Eu não pude acreditar! E além do mais, você o convidou para o baile!

- Na verdade, não foi bem isso...

- Não?

Os olhos de Bel brilharam e ela encarou Lizzy, que parou e pos as mãos no quadril, encarando-a ameaçadoramente.

- Eu fui apenas para pedir á ele para ser a minha dupla. Só que enquanto o seu grupo fazia o exercício ele pegou minha mão e me convidou para o baile... o que me lembra que você agora deverá ir também!

Lizzy entrou em pânico! Ainda existia um fio de esperança... ela bem que poderia ter se esquecido com tanta emoção em um só dia.

“ Bem, acho que terei que arranjar um vestido...”

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* Passé - Um movimento auxiliar no qual o pé da perna que está em movimento passa pelo joelho da perna de apoio, de uma posição para outra.
http://images.jupiterimages.com/common/detail/73/67/22426773.jpg


* Relevé elevado. Uma elevação do corpo em pontas ou meia pontas, ponta ou mei -ponta. Há duas maneiras de execução para o relevé. Na Escola Francesa, relevé é feito suavemente, uma contínua elevação enquanto Cecchetti e a Escola Russa o usavam como um passo ágil. Relevé deve ser feito em primeira, segunda, quarta e quinta posição

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